Todo mundo no mundo corporativo já ouviu que 20% do esforço gera 80% do resultado. O problema começa quando alguém aprende a aplicar o princípio de Pareto no trabalho e transforma isso em régua para cortar. "Some 80% disso aqui, princípio de Pareto." Pronto, decisão tomada — e quase sempre mal tomada.
Vale lembrar de onde a ideia veio. Vilfredo Pareto era um polímata: engenheiro, depois economista e sociólogo. Ele formou engenheiro, dirigiu uma ferrovia italiana e só então mergulhou na economia matemática. A regra do 80/20 saiu de uma observação social: ele reparou que uma minoria concentrava a maior parte das terras na Itália e foi atrás do padrão em outros lugares.
Nesse episódio a gente discordou — de propósito. Porque o princípio é verdadeiro, mas o uso dele costuma ser preguiçoso. Isso conversa com gurus corporativos que vendem frameworks prontos como se fossem soluções universais — o mesmo problema de pegar uma ideia poderosa e aplicar sem pensar.
A regra 80/20 funciona, mas não é botão de corte
Quando você faz análise estatística numa empresa, o padrão aparece: poucos clientes, poucas pessoas, poucas tarefas concentram a maior parte do resultado ou do estresse. Negar isso é ingênuo. Tratar como gatilho automático pra cortar metade da operação é pior ainda. A gente já puxou esse fio em o que realmente define alta performance — porque nem sempre quem parece menos produtivo está entregando menos valor.
Ação de baixo impacto também sustenta resultado
Aqui mora a teoria da Starbucks: tem loja que isolada não fecha a conta, mas mantém o hábito de consumo e impulsiona a marca toda. Vale pra capilaridade, pra presença de mercado, pro cafezinho que não rende hoje e destrava um projeto lá na frente. A soma de pequenas ações combinadas vira um resultado grande — uma fortalece a outra.
Pareto na gestão de tempo e nos prazos
Usado com cabeça, o 80/20 ajuda a olhar onde sua energia está indo e o que está dando retorno. E ele conversa com outra coisa, que no episódio a gente "batizou" pra não ficar sem nome: a Lei de Parkinson, segundo a qual o trabalho se expande para preencher o tempo disponível. Dê uma semana pra uma tarefa de uma hora e ela vai ocupar a semana. É por isso que dividir projeto grande em fases curtas funciona tão bem — algo que o TED de Tim Urban sobre procrastinação ilustra com humor: a gente tende a fazer tudo no último pedaço do prazo. Tem um episódio só sobre isso: agenda lotada e cérebro vazio — o caos produtivo do mundo corporativo.
Segmentação: o uso honesto do 80/20
Banco que separa cliente em camadas de atendimento está fazendo Pareto na prática — alocando mais tempo onde entra mais resultado. Isso faz sentido. O erro é basear 100% da decisão nisso e ignorar tudo que não é medível. Como comentamos ao falar de o básico bem feito como novo extraordinário, consistência nas pequenas entregas costuma valer mais do que otimizar apenas os grandes números.
O que fica é simples: aplicar o princípio de Pareto no trabalho é ótimo pra enxergar prioridade, péssimo como desculpa pra parar de pensar. Ele aponta onde focar. Ele não te autoriza a jogar fora os 80% restantes sem olhar.
Quer a discussão inteira, com a teoria da Starbucks, o "princípio do Peter Parker" e o bingo binário? Dá o play no episódio do Bingo Corporativo.
Momento PDI
- Abramo — Roda Viva com Miguel Nicolelis (29 de julho) — entrevista com o neurocientista brasileiro sobre inteligência artificial e seus limites, ouvida como podcast no Spotify.
- Abramo — Miguel Nicolelis — cientista brasileiro já cotado ao Nobel, referência mundial em interface cérebro-máquina e no exoesqueleto que deu o chute inicial da Copa de 2014.
- Shapoka — "Financial Freedom is Easy After You Learn This" — Ali Abdaal — vídeo do médico britânico que defende que o que as pessoas buscam não é dinheiro, é liberdade de tempo.
- Salomão — Supergirl: Mulher do Amanhã — Tom King — quadrinho premiado que, segundo ele, surpreende ao tratar de relações humanas, família e amizade; vai inspirar o filme da personagem.
- Bingo Corporativo — Vilfredo Pareto — economista e sociólogo ítalo-francês, criador da observação que originou a regra do 80/20, tema central do episódio.
- Bingo Corporativo — TED "Inside the Mind of a Master Procrastinator" — Tim Urban — palestra citada sobre deixar tudo pra última hora e entregar nos 20% finais do prazo.
- Bingo Corporativo — Lei de Parkinson — teoria mencionada (sem o nome na hora) de que o trabalho se expande para preencher o tempo disponível.
- Bingo Corporativo — Frase atribuída a Abraham Lincoln sobre afiar o machado — usada para ilustrar o tempo de preparação que antecede a execução.
- Bingo Corporativo — Philip Kotler — referência do marketing citada a propósito do MBA em que Abramo daria aula ao lado do autor.
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Manual de Sobrevivência Corporativa: Gen Z — 11 capítulos sobre a geração que mudou as regras do trabalho, na mesma voz do podcast. Sem frase pronta.
Quero o manual — R$59 Livro físico · 11 capítulosOnde ouvir
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Sobre o Bingo Corporativo
O Bingo Corporativo é um podcast semanal apresentado por Alexandre Abramo, Alexandre Salomão e Sergio Gomes (o Shapoka) — três amigos de infância que viraram executivos e decidiram contar a vida real no trabalho, sem frase pronta.
Carreira, liderança, decisões difíceis e os bastidores que ninguém posta. Sem papo motivacional vazio, sem romantizar o corporativo. Para quem trabalha, lidera ou tenta sobreviver no corporativo.
