"Custo é igual unha, tem de ser cortado sempre." A frase é atribuída a Jorge Paulo Lemann, um dos maiores executivos do país, e está no livro Sonho Grande. Faz sentido no contexto dele — uma fortuna construída otimizando linha de produção. O problema são os clichês corporativos que ainda atrapalham as empresas quando saem do contexto e viram dogma na boca de quem não entende o porquê.
Porque a frase, sozinha, não machuca ninguém. O estrago está no uso. Quando "cortar custo" vira obsessão, a primeira coisa que aparece é o clima de ameaça — e a primeira ideia de todo mundo é cortar gente. A segunda coisa que some, silenciosamente, é a coragem das pessoas de pensar diferente.
E o cenário pede o contrário. Segundo a Gallup, o engajamento global caiu de 23% para 21% em 2024, custando cerca de US$ 438 bilhões em produtividade ao mundo. Empresa parada por dentro também fica de pé — só que não por muito tempo.
Cortar custo sem matar a inovação
Existe corte saudável: rever despesa inútil, executivo voando de primeira classe à toa, o supérfluo de verdade. E existe o corte burro, aquele que tira o cafezinho e detona o clima por uma economia ridícula. A diferença é onde você corta. Quando a régua é "barato a qualquer custo", você poda exatamente a parte que faz a empresa crescer: a capacidade de inventar. O melhor caminho é inverter a lógica — parta da melhor solução possível e só depois pergunte quanto cabe no orçamento. Isso conversa diretamente com o que a gente discutiu em as verdades ácidas que as empresas repetem sem perceber.
Medo de errar trava qualquer equipe
Quando errar vira crime, as pessoas escolhem o caminho mais curto e sempre o mesmo. Ninguém arrisca. Pior ainda é o corte feito por planilha: filtra por tempo de casa, por faixa salarial, gera a lista de demitidos e pronto. Ninguém vê gente ali, só estatística. O recado que isso passa para quem fica é claro: "se a empresa faz isso comigo, eu faço com ela." E a confiança vai junto. A gente já puxou esse fio em as maiores lições de quem já se ferrou na vida corporativa.
Engajamento e a liderança da nova geração
"Ninguém é insubstituível" é verdade — mas tirar alguém que está na cadeira certa, fazendo bem o que faz, gera um custo invisível enorme. A geração que chega ao mercado não aceita "manda quem pode, obedece quem tem juízo". Ela contesta, e isso já é maioria, não exceção. O líder de hoje não precisa ser obedecido; precisa fazer a pessoa comprar a ideia. Sem isso, o funcionário entrega a tarefa, não o objetivo — exatamente o que você pediu, e nada do que você precisava. Tem um episódio só sobre isso: o choque de virar líder e o que ninguém te conta sobre gerenciar pessoas.
"Preciso disso pra ontem" e outras armadilhas
Urgência real existe. O problema é a urgência fabricada, normalmente filha da falta de planejamento. E aquele material feito correndo, sem almoço, que no fim "não deu tempo de apresentar"? Acontece o tempo todo. A saída não é proibir a pressa, é dividir o porquê: quando todo mundo entende a razão da urgência, o time topa junto. Quando é só pressão, ele se desgasta à toa. Como comentamos ao falar de agenda lotada e cérebro vazio, a cultura de urgência permanente é uma das maiores armadilhas do corporativo moderno.
No fim, o ponto não é abolir os clichês — é parar de usá-los no automático. Os clichês corporativos que ainda atrapalham as empresas só fazem estrago quando viram desculpa para não pensar. Vale lembrar que o Brasil já lidera o ranking mundial de rotatividade, com cerca de 51,3% ao ano segundo a Sólides. Gente engajada não pede demissão de quem confia nela.
Esse foi o tema do episódio #3 do Bingo Corporativo. Coloca no fone, dá o play e vem discutir com a gente quais clichês você ainda escuta no seu trabalho.
Momento PDI
- Abramo — Sonho Grande (Cristiane Correa) — origem da frase "custo é igual unha", de Jorge Paulo Lemann, ponto de partida da discussão sobre cortar custo.
- Abramo — Jorge Paulo Lemann — citado como exemplo de executivo que construiu fortuna otimizando linha de produção.
- Abramo — Jack Welch — ex-CEO da GE usado como exemplo do executivo "exemplar" dos anos 80 e 90.
- Abramo — Steve Jobs — citado como exemplo de gênio truculento e na discussão sobre quem realmente escreveu "Here's to the Crazy Ones".
- Abramo — Steve Jobs Was Not the Mastermind Behind "Here's to the Crazy Ones" (The Verge) — artigo que Abramo usa para defender que o manifesto foi escrito por um publicitário, não por Jobs.
- Bingo Corporativo — Bohemian Rhapsody (filme do Freddie Mercury) — referência à cena em que músicos perfeitos não contestam e o disco fica pior.
- Bingo Corporativo — Queen / Freddie Mercury — exemplo de que o atrito criativo entre quem se contesta gera resultado melhor.
- Salomão — O Jogo Infinito (Simon Sinek) — citado por Salomão na discussão sobre jogar o "jogo infinito" nas empresas.
- Salomão — Como Mentir com Estatística (Darrell Huff) — lembrado por Salomão ao falar das empresas que se dizem "líderes" em qualquer coisa.
- Bingo Corporativo — Modelo educacional finlandês — citado como referência de escola com menos tempo de aula, mais recreio e ensino multidisciplinar.
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Sobre o Bingo Corporativo
O Bingo Corporativo é um podcast semanal apresentado por Alexandre Abramo, Alexandre Salomão e Sergio Gomes (o Shapoka) — três amigos de infância que viraram executivos e decidiram contar a vida real no trabalho, sem frase pronta.
Carreira, liderança, decisões difíceis e os bastidores que ninguém posta. Sem papo motivacional vazio, sem romantizar o corporativo. Para quem trabalha, lidera ou tenta sobreviver no corporativo.
