Você sabe se comunicar bem? Essa foi a pergunta que abriu nosso episódio dessa semana, e a resposta honesta é: provavelmente nenhum de nós responde "sim" com convicção. A comunicação não violenta no trabalho virou buzzword, mas poucos entendem o que realmente significa ou conseguem colocar em prática. E é sobre isso que conversamos com Alice, líder de design em uma fintech, e nossos amigos Shapoca e Salomão — todos com raízes em comunicação, mas carreiras bem diferentes.
Temos uma admissão importante: somos uma sociedade educada no conflito. Nossos pais nos criaram com punições, ameaças e disputas. Aquele jeito agressivo de se comunicar que a gente ach que é "carinho entre amigos"? Reflexo direto disso. E quando chegamos no trabalho, trazemos toda essa bagagem. O desafio agora é entender que comunicação não violenta no trabalho não é fraqueza — é técnica, é maturidade, é inteligência.
Mas aqui vem o plot twist: muita gente confunde comunicação não violenta com ser legal e fazer o que todos esperam. Não é isso. É você conseguir expressar suas necessidades sem ofender o outro, e abrir espaço para que ele faça o mesmo. É, basicamente, parar de acusar e começar a conversar sobre objetivos compartilhados.
O que realmente é comunicação não violenta
Tem uma história clássica no método de Marshall Rosenberg, que desenvolveu esse conceito: uma mãe participa de um workshop e diz que tudo é "balela" — tem coisas que a gente precisa fazer, independente de comunicação. Mas quando Rosenberg faz perguntas direcionadas, sem julgamento, ela descobre: cozinha há 20 anos e odeia cozinhar. Nunca havia conversado sobre isso com a família porque achava que "precisava" fazer. Passa um tempo, a mesma família volta ao workshop e diz: "Quando ela falou que não cozinhava mais, a gente pensou: graças a Deus! A comida dela é horrível." Todo mundo estava sofrendo por uma conversa que nunca aconteceu.
Isso resume bem: comunicação não violenta é conseguir comunicar suas necessidades e ouvir as do outro, chegando a acordos reais — sem agressão disfarçada de necessidade.
Feedback e comunicação em equipes
O feedback estruturado é um dos momentos em que a comunicação não violenta faz mais diferença. Quando você feedback como um processo constante — não só aquela reunião formal assustadora — as pessoas ficam menos defensivas. Feedback diário normaliza a ideia de melhoria contínua, não de "você errou e vai levar uma bronca."
Mas tem um detalhe: feedback não é "você acertou/errou". Feedback é evolução. E para que funcione, você precisa de confiança. Aquela citação de Sartre é perfeita aqui: confiança se ganha em gotas e se perde em litros. Leva tempo, fluidez, consistência. Mas quando você quebra? Muito mais complicado recuperar.
Adaptando a comunicação para gerações e perfis diferentes
Uma das coisas mais complicadas da liderança hoje é traduzir mensagens entre gerações e níveis hierárquicos. Você precisa comunicar algo para o CEO de um jeito, para o time de outra forma, para o jovem freelancer de mais uma. E sim, você acaba virando um "Google Translator" de comunicação — absorvendo de cima, decodificando, repassando para baixo, e vice-versa.
O grande risco? Deixar de lado o que é essencial. És vezes um líder recebe uma informação pesada lá de cima e precisa decidir: repasso isso para desestabilizar a equipe ou absorvo esse impacto? Não tem resposta certa, só contexto. Mas é uma das partes menos glamourosas — e mais importante — da liderança.
Home office mudou tudo (e a gente tá cansado)
Uma revelação importante: a gente está comunicando para gente cansada. Videochamada o dia inteiro, olhando sua própria cara na tela, filhos gritando ao fundo, Wi-Fi caindo, microfone mudo. Esperar comunicação perfeita nesse contexto é delírio.
O home office também abriu a vida real para dentro do trabalho — e isso é ganho. Pessoas chegam em reuniões e falam: "Desculpa, perdi minha avó ontem" ou "Meu filho tá doente." E você marca para outro dia, sem drama. Empatia deixou de ser palavra bonita para ser necessidade de sobrevivência profissional.
Mas cuidado: WhatsApp não tem tom. Uma mensagem pode ser lida de 10 formas diferentes. Por isso reunião de alinhamento — mesmo que rápida, de 15 minutos — é ouro em contexto remoto.
As dicas que realmente valem
1. Ouça antes de falar. Separe o que é informação e o que é mensagem real. Digerir o que você recebe e pensar na melhor reação muda tudo.
2. Pense na história do outro lado. Aquela pessoa que te "atacou" pode estar com um filho doente no carro. Quando você imagina contexto, sua comunicação fica inteligente, não fraca.
3. Priorize como as pessoas recebem, não como você fala. Isso é teoria de comunicação 101, mas ninguém faz: o que importa é o que chega, não o que você manda. Construa a mensagem pensando no receptor, não no seu conforto.
4. Pratique inclusão na linguagem. Trocar "o cara faz isso" por "as pessoas fazem isso" parece pequeno, mas quando alguém se sente incluído na comunicação, abre-se muito mais para você. Confiança aumenta.
5. Leia "Vivendo a Comunicação Não Violenta". 190 páginas, super prático, cheio de exercício. Não é leitura única — é releitura, monitoramento constante. E tá tudo bem errar nesse processo.
O que fica
Comunicação não violenta no trabalho não é fraqueza. É técnica que exige maturidade, resiliência e empatia. Você vai ser visto como frouxo por alguns executivos do velho modelo? Talvez. E sua empresa que é uma bosta se penalizar você por tentar fazer certo.
A verdade é simples: tem uma pessoa do outro lado da conversa. Quando você lembra disso, tudo muda. Comunicação não violenta é só isso — lembrar que existe outro lado, e que ele também tem história, dor, contexto e necessidades.
Escute o episódio
Se esse papo sobre comunicação não violenta te interessou, escuta o episódio completo do BIM Corporativo. A gente gravou um bingo durante a conversa, tomou várias sacaneagens uns com os outros, e tem muito mais contexto. Vai valer a pena.
Onde ouvir
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Sobre o Bingo Corporativo
O Bingo Corporativo é um podcast semanal apresentado por Alexandre Abramo, Alexandre Salomão e Sergio Gomes (o Shapoka) — três amigos de infância que viraram executivos e decidiram contar a vida real no trabalho, sem frase pronta.
Carreira, liderança, decisões difíceis e os bastidores que ninguém posta. Sem papo motivacional vazio, sem romantizar o corporativo. Para quem trabalha, lidera ou tenta sobreviver no corporativo.
