Seus primeiros 100 dias definem tudo?

Ouvir episódio completo

Existe uma lenda corporativa de que nos seus primeiros meses num cargo novo você tem direito de errar. A real é o oposto: como ter sucesso nos primeiros 90 dias é justamente o que separa quem constrói autoridade de quem passa os anos seguintes pagando o preço de uma chegada torta. É o período em que você tem mais moral, mais apoio e, teoricamente, mais poder de mudar as coisas.

A inspiração do tema veio da política. Medir os primeiros 100 dias de um governante não é invenção recente — o marco nasceu com Franklin Roosevelt e o New Deal, nos Estados Unidos dos anos 1930, e virou régua para medir o começo de qualquer mandato, como relembra o Jornal Tornado. No corporativo, a lógica é a mesma: é a janela de maior popularidade e menor resistência. E, assim como presidentes, a maioria dos líderes desperdiça esse momento.

Só que no mercado o relógio é implacável. Pesquisas sobre a chegada de novos executivos mostram que o primeiro ano define reputação e, muitas vezes, sobrevivência no cargo — e a dança das cadeiras no topo não para de acelerar, segundo levantamentos acompanhados pelo InfoMoney. Começar bem deixou de ser luxo.

Por que o novo líder assumindo equipe deve ficar quieto no primeiro mês

O erro número um é chegar mudando tudo. O certo é entrar sem vaidade, ouvir, mapear o que funciona e por quê. Tem uma tentação humana forte de diminuir quem estava no cargo antes para se valorizar — e cair nela é furada. Se o negócio caminhava, havia razão. Primeiro entenda, depois decida. Isso conversa diretamente com o choque de virar líder e o que ninguém te conta sobre gerenciar pessoas, que a gente discutiu em profundidade no episódio #138.

A primeira vitória que te dá peso para mudar o resto

O livro "Os Primeiros 90 Dias", de Michael Watkins, virou leitura obrigatória por um motivo: ele defende que você precisa de um gol logo no início. Um projeto que sinalize "as coisas vão ser diferentes". Você não vira a empresa em 90 dias, mas essa vitória inicial te dá a bagagem para seguir mexendo no que importa. A gente já puxou esse fio em o que realmente define alta performance e quem entrega mais — e a lógica de construir resultado sólido desde cedo é central nos dois casos.

Substituir um chefe querido é mais difícil que substituir gente ruim

Trocar alguém demitido por baixa performance é moleza. O desafio é entrar no lugar de uma pessoa que o time não queria perder — às vezes um gestor até fraco para o negócio, mas adorado pela equipe. A receita: tranquilizar sem mentir, não prometer nada que não possa cumprir, falar bem de quem saiu e conduzir a evolução do time com calma. Tem um episódio só sobre isso: troca de liderança e o que a Seleção ensina sobre gestão, onde a gente destrincha exatamente o que acontece quando uma virada no comando é mal conduzida.

A cilada de ser colocado para "não dar problema"

Uma das bizarrices mais comuns do mundo corporativo: tirar um gestor inquieto, que provoca e movimenta, e colocar no lugar alguém mais manso só para a área ficar de pé sem incomodar ninguém. Se você é inquieto e cai numa vaga dessas esperando fazer revolução, caiu numa armadilha. Entender esse jogo nos primeiros dias evita muita dor de cabeça. Como comentamos ao falar de política no trabalho e por que ignorá-la pode custar sua carreira, ler o ambiente antes de agir não é fraqueza — é inteligência estratégica.

E quando os 90 dias são abrir o próprio negócio

Tem ainda o outro extremo: empreender. Aí não existe cargo pronto, time para apoiar nem processo herdado. É sair sem chão, fazer de tudo, sentir vontade de chorar com frequência — e, ainda assim, escolher aquele caminho todos os dias. Mais silencioso, mais solitário, mais traiçoeiro.

O que fica: ter sucesso nos primeiros 90 dias não é sobre chegar chegando e mudar tudo para mostrar serviço. É sobre chegar certo — ouvir antes de agir, entender o jogo político, garantir uma vitória rápida e só então mexer no que precisa mudar, sem dó. Quem ignora essa janela não a recupera depois.

Ouça o episódio: no #168 do Bingo Corporativo, Abramo, Salomão e Shapoka abrem o jogo sobre acertos, merdas e ciladas dos primeiros 100 dias — do corporativo à política. Dá o play e escuta inteiro.

Momento PDI

  • Salomão — Os Primeiros 90 Dias — Michael Watkins — livro apontado como leitura obrigatória para quem assume nova posição e precisa de uma primeira vitória rápida.
  • Abramo — Em Busca de Tolkien: Uma Odisseia Criativa — Érico Borgo — documentário e livro sobre o processo criativo de Tolkien, citado por Abramo como espetacular após ver a pré-estreia.
  • Salomão — A Dama de Ferro (2011) — filme com Meryl Streep sobre Margaret Thatcher, lembrado como exemplo de medidas impopulares na política.
  • Abramo — J.R.R. Tolkien — autor no centro do documentário citado, discutido por não querer ser popular apesar do fenômeno em torno de sua obra.
  • Bingo Corporativo — Margaret Thatcher — ex-primeira-ministra britânica citada como símbolo de condução econômica com "mão de ferro".
  • Abramo — Barack Obama — lembrado como o primeiro a prestar contas publicamente dos "primeiros 100 dias" num modelo bem corporativo.
  • Abramo — João Doria — citado como exemplo de gestor que emplacou várias medidas logo ao assumir São Paulo.
Manual de Sobrevivência Corporativa: Gen Z
O livro do Bingo Gostou deste papo? O livro vai mais fundo.

Manual de Sobrevivência Corporativa: Gen Z — 11 capítulos sobre a geração que mudou as regras do trabalho, na mesma voz do podcast. Sem frase pronta.

Quero o livro — R$59 Livro físico · 11 capítulos

Onde ouvir

O Bingo Corporativo está disponível em todas as plataformas. Escolha a sua preferida:

Sobre o Bingo Corporativo

O Bingo Corporativo é um podcast semanal apresentado por Alexandre Abramo, Alexandre Salomão e Sergio Gomes (o Shapoka) — três amigos de infância que viraram executivos e decidiram contar a vida real no trabalho, sem frase pronta.

Carreira, liderança, decisões difíceis e os bastidores que ninguém posta. Sem papo motivacional vazio, sem romantizar o corporativo. Para quem trabalha, lidera ou tenta sobreviver no corporativo.

carreira liderança gestão de pessoas mundo corporativo podcast brasileiro vida profissional
Todos os episódios