O fim do home office no Nubank foi o estopim de uma das maiores brigas corporativas do ano. No dia 6 de novembro, a fintech comunicou aos funcionários — e depois oficializou no site — que vai encerrar o regime prioritariamente remoto e migrar para um modelo híbrido. Segundo o comunicado assinado por David Vélez, a mudança afeta cerca de 70% dos 9.500 funcionários, com dois dias presenciais por semana a partir de julho de 2026 e três dias a partir de janeiro de 2027.
Não foi uma virada de chave abrupta. O primeiro semestre é de adaptação, e o próprio Vélez declarou que pretende voltar com a família ao Brasil para ficar perto do escritório. Poderia ter sido pior: a empresa tinha o direito de exigir presença total em quinze dias. Optou pelo meio-termo.
Só que nem todo mundo recebeu bem. E aí a história ficou bizarra.
O episódio do "Press F" e as demissões por justa causa
Durante a transmissão do anúncio, um grupo de funcionários gamers digitou "Press F to pay respect" no chat corporativo — uma piada de funeral. A leitura interna foi outra. O Nubank demitiu 14 pessoas: 12 por violação do código de ética em comentários sobre a transição e outras 2 que teriam planejado sabotar os sistemas da empresa. Falta de noção monumental? Sim. Isso conversa diretamente com a epidemia de falta de noção no ambiente corporativo que já discutimos em outro episódio. Mas dá uma ideia da temperatura.
Layoff disfarçado ou convicção sobre o presencial?
A pergunta inevitável: o Nubank está mascarando um corte de pessoal? A leitura mais honesta é que não. É uma aposta real na volta ao trabalho presencial, alinhada a um movimento maior. Para empresas grandes, o argumento é de cultura, troca e desenvolvimento de talento — coisas difíceis de replicar com cada um na própria casa. A gente já puxou esse fio em cultura é o que acontece quando ninguém está olhando, e a lógica se aplica diretamente aqui.
Por que o modelo híbrido virou regra no mercado
O Nubank não está sozinho. Pesquisa da Catho apontou que 69% das empresas brasileiras pretendiam manter o regime 100% presencial em 2025. E o home office, no agregado, vem recuando: dados da Pnad Contínua do IBGE mostram que a proporção de trabalhadores em casa caiu de 8,4% em 2022 para 7,9% em 2024, cerca de 6,6 milhões de pessoas. A maré virou. Tem um episódio só sobre isso: vigilância digital e o home office, onde a gente debate o quanto as empresas monitoram quem trabalha de casa — e por que isso importa nesse novo cenário.
O contraponto que ninguém deveria ignorar
Home office não é sinônimo de vagabundagem. Ele beneficia quem quer se esconder, sim — mas também viabiliza times pequenos que dependem de profissionais raros espalhados pelo país. Para uma agência com gente em Curitiba, São Paulo e Florianópolis, exigir um escritório único poderia tornar a operação inviável. O ponto não é "remoto ou presencial", é qual modelo cabe no seu contexto. Como comentamos ao falar de flexibilidade e até onde as empresas precisam ceder, essa conta nunca fecha igual para todo mundo.
O que fica é simples e desconfortável: o regime de trabalho é decisão da empresa, e o fim do home office no Nubank só reforça isso. A blindagem possível continua sendo individual — ser bom o bastante para que abram uma exceção por você. O resto é torcer pra estar do lado certo quando o plano muda.
Ouça o episódio completo pra entender o "Press F", as sabotagens e o debate sobre o novo normal corporativo. Tem bingo binário e PDI no fim. Dá o play.
Momento PDI
- Shapoka — What Happened, Miss Simone? (2015) — documentário sobre a vida e a obra da cantora Nina Simone, indicado como repertório fora do tema do episódio.
- Shapoka — Nina Simone — citada como um dos maiores gênios da música moderna; o clássico "Feeling Good" é dela.
- Salomão — Princípios, de Ray Dalio — livro recomendado para definir os princípios que conduzem a vida profissional e pessoal.
- Abramo — Podcast Nós na História — episódio 51 — "7 maravilhas do mundo antigo são mais legais que videogame", citado como episódio imbatível sobre história antiga.
- Bingo Corporativo — As 7 maravilhas do mundo antigo — tema do episódio citado, das pirâmides do Egito ao Farol de Alexandria.
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Sobre o Bingo Corporativo
O Bingo Corporativo é um podcast semanal apresentado por Alexandre Abramo, Alexandre Salomão e Sergio Gomes (o Shapoka) — três amigos de infância que viraram executivos e decidiram contar a vida real no trabalho, sem frase pronta.
Carreira, liderança, decisões difíceis e os bastidores que ninguém posta. Sem papo motivacional vazio, sem romantizar o corporativo. Para quem trabalha, lidera ou tenta sobreviver no corporativo.
