A gente sentou pra escrever um livro que ensinasse como entender a geração Z no trabalho e terminou com uma conclusão desconfortável: em muita coisa, quem era chato éramos nós. O Bingo Corporativo nasceu há cinco anos como um projeto sobre a nossa "rebeldia" contra a geração mais velha. Cinco anos depois, o mercado virou, os mais novos assumiram a frente — e a gente flagrou a si mesmo bancando o rabugento da história.
Não é um fenômeno novo. Reclamar dos jovens é tão antigo que já atribuíram frases sobre a "juventude descontrolada" a Sócrates há mais de dois mil anos. E há um pano de fundo real: segundo o World Economic Forum, até o fim de 2025 a geração Z deve representar cerca de 30% da força de trabalho global. Ou seja, não dá mais pra tratar isso como frescura de um punhado de estagiários. Isso conversa diretamente com o que a gente já tinha debatido em Geração Z no trabalho: frágil ou só diferente?, onde a questão da fragilidade percebida versus uma forma genuinamente diferente de trabalhar ficou bem no centro do debate.
Depois de três anos escrevendo, saiu o Manual de Sobrevivência Corporativa Gen Z. E a maior lição foi sobre a gente, não sobre eles.
Diferenças entre gerações no mercado de trabalho são mais cíclicas do que parecem
O livro tem um capítulo inteiro de dados checados, mas o recado central é simples: as mesmas broncas que a nossa geração levou voltam recicladas contra a próxima. Quem é da geração Z lê e se reconhece nas nossas histórias. O fundo é semelhante, só muda a roupagem. Reclamar do novato é, no fim, reclamar de uma versão mais jovem de você. A gente já tinha puxado esse fio em Odiamos a Geração Z? A paciência acabou ou ainda há esperança?, e o padrão se repete com uma consistência que assusta.
Sua primeira gestão de liderança não é sua
Essa foi a virada mais honesta do episódio. Na primeira vez que a gente virou chefe, copiou e colou os gestores anteriores — inclusive os defeitos que a gente jurava não repetir. Você é ótimo de resultado e péssimo de gente ao mesmo tempo, sem perceber. Até entender que precisa criar o seu próprio modelo, leva anos. E é aí que falta a peça que nenhum curso entrega: qual é o seu jeito de liderar? Tem um episódio só sobre isso: O Choque de Virar Líder: O Que Ninguém Te Conta Sobre Gerenciar Pessoas, que desce fundo exatamente nesse momento de transição em que o mapa some da mão.
Onboarding de novos funcionários: o que realmente marca
A gente comparou três experiências de chegada em empresas. Uma sem nenhum onboarding, do tipo "pega e se vira". Outra de dez dias que só falava de saúde e segurança. E a conclusão é que o "toma aí e se vira" é sempre o pior — mesmo um onboarding meia-boca cria vínculo, mostra a empresa por dentro e forma a sua "turma" dentro da firma. Como comentamos ao falar de cultura como o que acontece quando ninguém está olhando, são justamente esses primeiros rituais invisíveis que moldam comportamento muito antes de qualquer treinamento formal.
Liderança se lapida na vida, não no livro do Kotler
Saber a teoria de cor não faz de ninguém um bom líder. Um de nós era o melhor aluno de marketing da turma e ouviu do próprio orientador que faltava uma coisa: experiência. Anos depois o clique veio — liderança boa é a sua adaptação daquilo que você aprendeu ao seu contexto e à sua forma de ser. E boa parte disso a gente até puxou de onde menos se espera: de uma antiga mesa de RPG, onde justiça, lealdade e conduzir emoções já eram treino de time.
O que fica: talvez a pergunta certa não seja "como aturar a geração Z", e sim como entender a geração Z no trabalho enxergando nela o reflexo dos nossos próprios trancos de carreira. Antes de rotular o mais novo, vale lembrar que a gente também foi o estagiário que o chefe teve vontade de estrangular.
Esse episódio é sobre o livro, mas também sobre o caminho que nos trouxe até ele — com as histórias, os erros e as viradas de chave que ficaram de fora do papel. Ouça o #159 e você vai rir se reconhecendo em pelo menos uma delas.
Momento PDI
- Bingo Corporativo — Manual de Sobrevivência Corporativa Gen Z — o livro dos três hosts sobre como parar de se irritar e começar a entender a geração que mudou as regras do trabalho.
- Abramo — Livro sobre DDA (hoje TDAH) — presente que um antigo chefe, Eugênio, deu a ele como exemplo do que é um líder de verdade: acreditar na pessoa e mostrar o caminho.
- Abramo — Philip Kotler — citado como o "livro do Kotler", símbolo da teoria de marketing que, sozinha, não substitui experiência prática.
- Abramo — Stranger Things — citada como referência pra quem não sabe o que é RPG, hobby de infância que aproximou os três.
- Shapoka — Caverna do Dragão — lembrada pela abertura desafinada do desenho, numa brincadeira durante a conversa.
- Bingo Corporativo — Herbert Richers — referência à dublagem brasileira, citada como piada ao contar a história da vendedora "Márcia".
- Abramo — Biografia de Steve Jobs (Walter Isaacson) — mencionada ao provocar sobre futuras biografias de Elon Musk e Donald Trump.
- Salomão — Jô Soares — comparação bem-humorada feita pelos colegas por ele "enrolar" a história antes de contar.
Manual de Sobrevivência Corporativa: Gen Z — 11 capítulos sobre a geração que mudou as regras do trabalho, na mesma voz do podcast. Sem frase pronta.
Quero o livro — R$59 Livro físico · 11 capítulosEpisódios relacionados
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Sobre o Bingo Corporativo
O Bingo Corporativo é um podcast semanal apresentado por Alexandre Abramo, Alexandre Salomão e Sergio Gomes (o Shapoka) — três amigos de infância que viraram executivos e decidiram contar a vida real no trabalho, sem frase pronta.
Carreira, liderança, decisões difíceis e os bastidores que ninguém posta. Sem papo motivacional vazio, sem romantizar o corporativo. Para quem trabalha, lidera ou tenta sobreviver no corporativo.
