Antes de decidir como lidar com a geração Z no trabalho, vale um teste de honestidade: a gente reclama que eles são impacientes, querem promoção rápida, exigem feedback e trocam de função toda hora. Pois é exatamente o que os baby boomers falavam dos millennials. A crítica não muda — só muda o alvo. A gente já puxou esse fio em como extrair o melhor das gerações no ambiente de trabalho, e a conclusão era parecida.
O que nos faz achar que a nossa geração era melhor é a nostalgia. A mesma força que faz você defender seu time de futebol contra qualquer placar. Ela distorce a lembrança, apaga o perrengue e transforma sofrimento em "caráter". Por isso vale separar o que é dado do que é saudade disfarçada de sabedoria.
E tem dado novo na mesa. Segundo a Agência Brasil, com base no Ministério da Previdência, os afastamentos por transtornos mentais mais que dobraram em dez anos no país, passando de cerca de 203 mil em 2014 para mais de 440 mil em 2024 — recorde da série histórica. Ansiedade lidera a lista. Antes de chamar uma geração de frouxa, talvez a conta seja maior do que ela. Isso conversa com o que discutimos em Burnout ou Mimimi: como o trabalho tá adoecendo você, onde um médico do trabalho ajudou a separar o que é real do que é exagero.
Impaciência ou só uma régua diferente na carreira
Geração impaciente ou geração que se recusa a engolir sapo? São coisas diferentes. A gente segurava emprego ruim por medo de perder a única oportunidade. Eles olham e dizem: não tô gostando, vou embora. Com o trabalho mais global, dá pra atender cliente de outro país sem sair do quarto. Menos apego, mais opção. Tem um episódio só sobre isso: o fim do amor à camisa e os 54% que querem sair em 2026.
Propósito e valores no trabalho não são frescura
Aqui eles estão certos. Ninguém se engaja em "gerar valor para o acionista". Toda empresa precisa de lucro, e isso tem que ser dito com transparência — mas a construção desse resultado precisa significar alguma coisa pra quem está ali todo dia. Quando uma empresa só fala em lucratividade no comportamento do dia a dia, ela perde gente boa que tinha tudo pra ficar. Como comentamos ao falar de cultura como o que acontece quando ninguém está olhando, propósito não é parede de escritório — é o que orienta as decisões reais.
Vitimismo: onde o argumento desanda
O ponto fraco é a terceirização da culpa. A carreira travou por causa da empresa, do chefe, da falta de oportunidade — sempre externo. Falta um pouco de autorresponsabilização e de estrada. O detalhe inconveniente: a gente também era assim aos 20 e poucos, só não tinha o ex-colega de faculdade virando dono de startup do lado pra alimentar a comparação.
O trainee, o estágio e a lei que mudou o jogo
Vale lembrar de onde viemos. A gente fazia estágio por quase nada — às vezes de graça, às vezes só pelo vale-transporte. Isso mudou de verdade quando virou lei. A Lei do Estágio (nº 11.788/2008) deu ao estagiário direito a recesso de 30 dias após 12 meses, entre outras proteções. Não é frescura de geração nova: é dignidade que a nossa simplesmente não teve.
No fim, decidir como lidar com a geração Z no trabalho é menos sobre escolher um lado e mais sobre admitir que os dois têm um pouco de razão. Eles cobram propósito e às vezes se vitimizam. A gente resistiu demais e às vezes chama isso de virtude. Maturidade, talvez, seja enxergar as duas coisas ao mesmo tempo.
Quer rir e repensar seus próprios rótulos? Dá o play no episódio #70 do Bingo Corporativo — sim, com Bingo Binário e tudo.
Momento PDI
- Bingo Corporativo — The Hard Thing About Hard Things (Ben Horowitz) — indicação do ouvinte Fred Montezuma para complementar o tema de liderança e gestão de pessoas difíceis.
- Bingo Corporativo — Trillion Dollar Coach / Coach de 1 Trilhão de Dólares — citado como leitura sobre mentoria e desenvolvimento de líderes; os hosts comentaram que é "bem bom".
- Bingo Corporativo — The Dichotomy of Leadership (Jocko Willink) — terceira indicação do ouvinte Fred sobre equilíbrio nas decisões de liderança.
- Salomão — Matrix (a referência ao "erro na Matrix") — usada como piada ao classificar o nome "Joaquim", que escaparia das gerações.
- Salomão — Lionel Richie — citado em homenagem ao "Liron Nick" e à música "Hello", brincando com o clima de conhaque do Chapoca.
- Abramo — Charlie Brown Jr. — exemplo de como a nostalgia reabilita o que antes era criticado, aplicado também à crítica geracional.
- Abramo — Restart — citada na sequência da discussão sobre gosto musical e nostalgia entre gerações.
- Bingo Corporativo — Estudo da McKinsey (2022) sobre saúde mental por geração — citado o dado de que a geração Z é a que mais relata sofrimento emocional (cerca de 25%), contra índices bem menores entre geração X e baby boomers.
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Quero o manual — R$59 Livro físico · 11 capítulosOnde ouvir
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Sobre o Bingo Corporativo
O Bingo Corporativo é um podcast semanal apresentado por Alexandre Abramo, Alexandre Salomão e Sergio Gomes (o Shapoka) — três amigos de infância que viraram executivos e decidiram contar a vida real no trabalho, sem frase pronta.
Carreira, liderança, decisões difíceis e os bastidores que ninguém posta. Sem papo motivacional vazio, sem romantizar o corporativo. Para quem trabalha, lidera ou tenta sobreviver no corporativo.
