Tem empresa demais virando girafa. Aquela estrutura comprida, cheia de degraus entre o analista e o presidente, em que a decisão demora, a estratégia se distancia da operação e ninguém mais sabe direito o que está acontecendo na ponta. A redução de níveis hierárquicos nas empresas entrou de vez na pauta corporativa — e o episódio #120 do Bingo Corporativo destrincha por que esse movimento é mais saudável do que parece, mas também cheio de armadilha.
O gatilho foi uma matéria sobre o chamado "apocalipse da gerência média". E o caso mais barulhento veio dos Estados Unidos: a Amazon anunciou que vai cortar cerca de 14 mil cargos corporativos, na maior leva de demissões da sua história, com a empresa investindo mais em inteligência artificial. A própria Amazon descreveu o movimento como um esforço para reduzir burocracia e remover camadas da estrutura.
A pergunta que abre a conversa: quanto mais nível hierárquico, mais a liderança se afasta da operação? A resposta dos três hosts é praticamente unânime — e tem nuance.
Estrutura girafa e o efeito sanfona na organização
O problema não é só ter muitos níveis, é ter níveis sem escopo. Quando uma empresa cresce de forma artificial — empurrada por investidor ou por fundador afobado —, ela cria áreas que não tem demanda pra sustentar. O resultado é o efeito sanfona: monta a girafa, ela não funciona, derruba a girafa e volta seis meses depois pra reconsolidar tudo. Quando o crescimento é orgânico, com time aumentando à medida que a demanda aparece, a história costuma fluir bem melhor. Isso conversa diretamente com o que discutimos ao falar de cultura organizacional e o que acontece quando ninguém está olhando — estruturas infladas tendem a esconder comportamentos que só aparecem quando a empresa para de crescer.
O achatamento da gerência média é real?
Existe um relato de tendência de "amassar" o gerente médio em vez de cortar os gatos gordos lá em cima. Na prática, o que os hosts observam é menos um massacre da gerência média e mais uma intenção deliberada de reduzir as camadas entre a operação e a alta liderança. O risco real aparece quando se promove gente despreparada pra esse meio de campo, criando um vácuo. A gente já puxou esse fio em O Choque de Virar Líder: o que ninguém te conta sobre gerenciar pessoas — a transição para a gestão costuma pegar muita gente de surpresa exatamente porque o preparo não vem junto com a promoção. E o desgaste de quem fica no meio tem dado concreto: segundo a Gallup, a queda no engajamento global em 2024 foi puxada principalmente pelos gestores, que recuaram de 30% para 27%.
Founder mode: quando o fundador retoma as rédeas
Em tech, virou assunto quente o "founder mode". O fundador cria a empresa, ela cresce, e de repente a operação está tão distante da visão original que tudo emperra. Aí o fundador volta marretando a estrutura pra reaproximar. O termo ganhou força depois do ensaio de Paul Graham que contrapõe "founder mode" e "manager mode", defendendo que a receita tradicional de delegar tudo pra gestores profissionais pode atrapalhar mais do que ajudar. Tem um episódio só sobre isso no contexto de ego e liderança: Você Não É o Steve Jobs: Genialidade, Ego e Gestão do Capeta — vale ouvir junto com esse.
Líder bom gosta de gente (e é acessível)
Aqui mora o coração do episódio. Empresa com degraus de liderança demais às vezes esconde gente que não quer falar com gente. E quem não tem paciência com pessoas deveria ser especialista, não gestor. A dica mais direta: se você não tem nenhum acesso ao chefe do seu chefe, ou se ele só se dirige a você quando você está de saída, você tem um problema de liderança. Como comentamos ao falar de chefe ruim ou liderado mimado — o que realmente faz alguém pedir demissão, a distância entre líderes e times é uma das principais razões que empurram talentos para fora. Sobre a geração Z querer menos cargo de chefia, vale a ressalva — no Brasil a coisa não é tão simples: pesquisa com quase mil jovens aponta que eles querem, sim, liderar, só não nos moldes antigos.
O que fica: a tendência das empresas modernas é menos camada, e a redução de níveis hierárquicos serve pra aproximar quem decide de quem executa. Mas estrutura enxuta sem líder que gosta de gente não resolve nada — boa parte das decisões de hierarquia ainda nasce no travesseiro de quem se acha especial, pura ilusão de poder. Já tínhamos tocado nisso em FIFA, CBF e a Síndrome do Pequeno Poder: o que o futebol ensina sobre gestão, onde fica claro que o problema da hierarquia inflada não é exclusividade do mundo corporativo.
Esse episódio é papo de quem viveu girafa, sanfona e Olimpo de verdade. Dá o play no #120 do Bingo Corporativo e confere o "Bingo Binário" no final — você provavelmente vai se reconhecer em mais de uma cartela.
Momento PDI
- Shapoka — Provocast #287, com Marcelo Gleiser — episódio do podcast do Marcelo Tas (TV Cultura) com o físico brasileiro; conversa sobre ciência, evolução e política pra abrir a cabeça e criar repertório.
- Shapoka — Marcelo Gleiser — cientista brasileiro citado como referência fora da curva, "o nosso Neil deGrasse Tyson".
- Salomão — Muito Além da Hierarquia, de Pedro Mandelli — livro de 18 anos ainda atual sobre como se posicionar e liderar em qualquer nível hierárquico, totalmente conectado ao tema do episódio.
- Abramo — Flow Executive Talks (entrevista de 30/10) — episódio em que o Igor entrevista o Abramo, com papo sobre o mercado de criação de conteúdo.
- Abramo — A Dança do Universo, de Marcelo Gleiser — indicação de livro do mesmo autor do Provocast, sobre as origens do cosmos e as ideias humanas sobre o universo.
- Bingo Corporativo — Neil deGrasse Tyson — astrofísico americano citado como comparação ao papel de divulgador científico de Gleiser.
Episódios relacionados
Manual de Sobrevivência Corporativa: Gen Z — 11 capítulos sobre a geração que mudou as regras do trabalho, na mesma voz do podcast. Sem frase pronta.
Quero o manual — R$59 Livro físico · 11 capítulosOnde ouvir
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Sobre o Bingo Corporativo
O Bingo Corporativo é um podcast semanal apresentado por Alexandre Abramo, Alexandre Salomão e Sergio Gomes (o Shapoka) — três amigos de infância que viraram executivos e decidiram contar a vida real no trabalho, sem frase pronta.
Carreira, liderança, decisões difíceis e os bastidores que ninguém posta. Sem papo motivacional vazio, sem romantizar o corporativo. Para quem trabalha, lidera ou tenta sobreviver no corporativo.
